Pós-Luta

Publicado em 29 de Maio de 2016 às 03h:16

O melancólico fim de Shane Mosley

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Autor Daniel Leal


Futuro membro do Hall da Fama, o tetracampeão mundial em três categorias demonstrou que seu melhor já não pode mais ser alcançado, e perdeu sua possível última chance de conquistar mais um título. (Imagem: Ross D. Franklin/Associated Press)

A Gila River Arena, em Glendale, Arizona, neste sábado, mostrava tristemente vários lugares sobrando quando um dos maiores de seu tempo, “Sugar” Shane Mosley (49-10-1, 41 ko's), fazia sua caminha rumo ao tablado, acompanhado de outra lenda, Roberto “Manos de Piedra” Duran, hoje seu treinador. Não vender todos os ingressos lutando longe dos principais centros era o retrato mais sintomático do que estava acontecendo: A despedida melancólica de um astro.

Em 2009, quando Mosley tomou o título dos meio-médios de Antonio Margarito (que por sua vez havia tomado-o de Miguel Cotto, na luta anterior), o Staples Center, em Los Angeles, bateu o recorde de público e renda para vê-lo – a despeito das apostas – nocautear o mexicano em pé no 9º round. Esta foi a última vez que Shane teve em mãos um título mundial e quem dera tivesse parado, gloriosamente, ali.

O que se seguiu foram 4 lutas, 3 derrotas (para Floyd Mayweather, Manny Pacquiao e Saul Alvarez, mas, ainda assim, derrotas) e um empate diante do medíocre Sergio Mora. Logo, “Sugar” ainda tinha o que entregar ao público, pois vendeu caro todos seus reveses, mas sua continuidade, apesar de excelente para seu bolso, foi péssima para seu legado.

Dizem que todo lutador tem sempre mais algo dentro de si para demonstrar, e é com essa esperança que eles seguem. Seja por razões emocionais, pela paixão pelo esporte, ou pelo dinheiro, Shane seguiu uma carreira brilhante, que poderia ter terminado da mesma forma. Fato é que, na noite de hoje, isso se confirmou praticamente impossível.

O russo David Avanesyan (22-1-1, 11 ko's), de 27 anos, lutou pela primeira vez fora do continente europeu. Á seu favor contava, apenas e tão somente, um título interino da AMB que possuía e a jovialidade perante seu rival, aos 44 de idade (e do segundo tempo em sua jornada). Ele não fez uma bela trajetória, não havia vencido grandes rivais e esta era sua maior chance. Fato é que a fez valer.

O primeiro round mostrou Mosley dedicado ao jab, mas de movimentação e retorno da guarda um pouco estranhos, enferrujados, talvez. Percebendo isso, Avanesyan aplicou potentes contragolpes a partir do segundo giro, aonde, aliás, já ficara claro que aquele americano no ringue era qualquer boxeador, menos o legendário campeão em 3 divisões de peso que conhecemos um dia.

A noite seguiu assim, com “Sugar” tentando fazer o que sua idade ainda lhe permitia, em uma dolorosa valsa de despedida de um dançarino que já não possui mais o vigor físico de outrora. Shane teve seus lampejos, mas David teve mais. Aproveitou-se dos milissegundos preciosos que o tempo levou de Mosley, entre a aplicação de uma sequência e outra, entre seu ataque e volta para a posição de defesa, e, mesmo sendo um atleta sem um terço que seja da experiência que tinha seu adversário, conseguiu, de forma decente, anular a tática de seu jogo.

Para complicar a situação, o árbitro tirou do então desafiante um ponto por constantes socos aplicados abaixo da linha de cintura, no décimo assalto. No fim das contas não fez diferença nas marcações dos jurados, mas forçou o ex-multicampeão a aumentar sua ferocidade, e, por consequência, sua exposição, o que culminou em um belo 12º, e derradeiro, intervalo.

Com o soar do gongo, vieram os placares. Um magro 114-113, e dois um pouco exagerados 117-110, todos à favor do boxeador da Rússia, apto à ser o desafiante oficial de quem sobressair na peleja entre Keith Thurman e Shawn Porter. Para Shane Mosley, muito mais do que o vencedor da contenda, aqueles scorecards talvez tenham trazido algo muito maior: O fim triste de uma carreira excepcional.

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