Pós-Luta

Publicado em 20 de Novembro de 2016 às 04h:05

Ward, de virada!

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Autor Daniel Leal

Americano vence Sergey Kovalev em Las Vegas em combate muito apertado, após começar mal, tornando-se campeão mundial em duas categorias ao tomar os cinturões da AMB, OMB e FIB dos meio-pesados das mãos do russo. (Imagem: Chavez/AP)

Que seria uma guerra, já era previsto. Do maneira que aconteceu, não. O que ocorreu na T-Mobile Arena, nesta madrugada, não foi uma simples decisão mundialista entre um russo e um americano, e sim uma briga, em muitos sentidos. A vontade de ambos os pugilistas fez com que a vitória de Andre “S.O.G” Ward (31-0, 15 ko's) sobre Sergey “Krusher” Kovalev (30-1-1, 26 ko's) não fosse tão bela aos olhos, mas não deixou a desejar em emoção. O primeiro levou para casa a decisão unânimes dos árbitros e todos os títulos (AMB, FIB e OMB) em jogo. O segundo, nem por ter retornado de mãos vazias, deve se lamentar.

Os fatos

Mal e assustado, Ward bambeou no primeiro jab bem colocado de Kovalev. No segundo assalto foi ao solo e teve de se segurar para ouvir o gongo. Parecia que não valia mais a pena contabilizar os pontos pois o russo, então detentor de três cinturões, encerraria as ações já na passagem seguinte. O estadunidense, no entanto, parece ter sido “acordado” em algum momento entre o knockdown sofrido e o intervalo, voltando melhor, começando a demonstrar suas qualidades.

Enquanto Andre ia perdendo o medo, Sergey ampliava uma estratégia que pode ter lhe custado a luta: Ambos entravam “sujo” no clinch, ou seja, agarrando demais e chaveando os braços do oponente, mas além de ser mais agressivo nesse quesito, Kovalev passou a levar Ward, a todo momento, para as cordas ou para o corner enquanto estavam com os braços entrelaçados. O grande problema para o “Krusher” era que seu adversário parecia estar preparado para isso, não deixando com que ele mantivesse-o aonde queria na hora do “break”, além de parecer cansar mais o infrator do que o infringido, como ficou demonstrado mais a frente.

Seja por aumento de confiança, ou pelo progressivo cansaço em seu oponente, “S.O.G.” iniciou a demonstração de quem ele é na segunda metade do confronto. Mais desenvolto, voltou a mostrar as esquivas e bons jabs que sempre o nortearam, deixando o então campeão, muitas vezes, perdido. O atleta europeu, por outro lado, dava a impressão (bastante real) de que apenas um punch bem aplicado era suficiente para resolver o imbróglio, e Ward temia isso claramente.

Com alternâncias de bons momentos, o derradeiro assalto da contenda se encaminhava com pura emoção. O sentimento era de que havia uma possibilidade bastante grande de o resultado ser um empate após o 11º round, obrigando ambos a vencer o último para levar a vitória para casa. E em três minutos de muito equilíbrio, como em vários outros giros, estava decidida uma das mais equilibradas disputas dos últimos anos.

Tanto Ward quanto Kovalev foram comedidos, não comemorando o êxito antes do anúncio oficial. E ele veio indicando que os três jurados do combate viram 114-113 para Andre, exatamente como na nossa marcação. Em um misto de vaias e aplausos, digno de um resultado que vai dar muito pano pra manga, Ward confirmou uma das maiores viradas da história do pugilismo recente. Ao russo, resta a lamentação e a briga por uma – justa – revanche. É claro que os grandes teóricos da conspiração falarão de roubo ou favorecimento ao pugilista dos EUA. Bobagem. O que houve foram rodadas de difícil marcação que podem causar polêmica.

O grande problema é que, apesar de oficialmente o evento ter o objetivo de acabar com a dúvida sobre qual dos dois é o melhor de sua divisão e merece ser citado como um contendor ao posto de número #1 na nobre arte dentre todas as categorias, ainda paira a indagação. Talvez só um segundo encontro em cima do tablado possa resolver esta questão.

Nas preliminares da noite, Isaac Chilemba (24-5-2, 10 ko's), desistiu da contenda contra o invicto Oleksandr Gvozdy (12-0, 10 ko's) durante o intervalo para o nono giro devido à problemas no braço direito, perdendo a chance de conquistar o título americano NABF dos 79,8 kg. Em uma luta em que ninguém mereceu ganhar nos super-leves, Maurice Hooker (21-0-3, 16 ko's) empatou com Darleys Perez (33-2-2, 21 ko's), defendendo o cinturão norte-americano versão OMB (NABO). Já o médio Curtis Stevens (29-5, 21 ko's), bateu James De la Rosa (23-5, 13 ko's) e defendeu o boldrié Continental das Americas da AMB por decisão unânime dos jurados após 10 rodadas de combate.

Claressa Shields (1-0, 0 ko's), duas vezes ouro olímpico entre as mulheres, fez sua estreia profissional também no evento. Ela encarou Franchon Crews (0-1), ex-titular da seleção estadunidense antes da ascensão de Shields, e venceu todos os rounds de combate, tanto para nós, quanto para os jurados, que enxergaram a pontuação idem de 40-36 em favor de Claressa.

A programação não teve transmissão para o Brasil.

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