Pré-Luta

Publicado em 10 de Novembro de 2017 às 17h:58

A despedida de um GRANDE, que poderia ter sido GIGANTE

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Autor Daniel Leal

Dizer que Acelino “Popó” Freitas, um tetracampeão mundial, não foi um grande lutador é puro despeito. No entanto, há de se reconhecer que, talvez, ele poderia ter conseguido ainda mais. Neste sábado, o ídolo se despede definitivamente (segundo ele) dos ringues, com transmissão do SporTV3. (Imagem: Montagem R13)

O baiano Acelino “Popó” Freitas (40-2, 34 ko's) é um ídolo nacional, possui quatro títulos do mundo, em duas categorias diferentes, e foi o responsável por um grande respiro do boxe nacional na mídia entre o final da década de noventa e meados dos anos 2000. Qualquer um que negar estes fatos, negará a história.

História esta que passa pela medalha de prata no pan-americano de Mar del Plata, em 1995, pelo título mundial dos super-penas da OMB, em Agosto de 1999, pela unificação com o cinturão AMB, em 2001, ao suplantar Joel Casamayor, pela subida vitoriosa de categoria em 2004 e pela retomada do cetro OMB dos leves em 2006.

Popó é o segundo maior boxeador brasileiro de todos os tempos. Ponto. Qualquer outra afirmação é uma mentira. São fatos, não opiniões. Em seu tempo, fez mais do que qualquer outra figura carismática, ou folclórica, conseguira fazer até então. O problema do “tempo” supracitado, no entanto, é exatamente que ele passa.

Hoje, Acelino tem 42 anos. Destes, a maior parte dedicados à nobre arte. Poderia, entretanto, ter sido ainda mais.

Antes de abordarmos isso, vamos retornar a Agosto de 2004, mais precisamente no dia 7, data em que se completavam exatos 5 anos de sua primeira conquista mundial, quando deixou Anatoly Alexandrov em estado de pré-coma, na França. Haveria a possibilidade desta ser apenas uma data comemorativa, porém, no Foxwoods Resort, na reserva indígena de Mashantucket, nos EUA, Freitas conhecia, então, sua primeira derrota, já que Diego Corrales colocou-o no chão três vezes, para, na última, o brasileiro indicar ao árbitro que não queria seguir combatendo.

Seu irmão, Luis Claudio, reportadamente mostrou-se indignado. Os americanos, idem. Eles não toleram desistências do combate. Em sua biografia autorizada, indica-se que Popó não tinha mais foco, o que já ficara claro em entrevista concedida à jornalista Marília Gabriela, meses antes. Quando questionado por Gabriela se, após 35 lutas estava “pronto para perder”, ele respondeu “Sim”.

“Oras, quem está pronto para perder, VAI perder”, pensei, instantaneamente. Dito (ou, pensado) e feito.

Com a mentalidade certa, Popó venceria aquela luta, a qual dominava antes da primeira queda. Mesmo entrando no décimo round, vencia na papeleta de um dos jurados, perdendo nas demais por uma diferença ínfima. Dava para ganhar, mas ele não estava pronto para isso.

Corrales, na sequência, esteve na espetacular batalha contra José Luis Castillo, a quem venceu e de quem Freitas também teria chances de vencer. O mexicano era duríssimo, porém não era um virtuose, tecnicamente falando. A pegada do baiano derrubaria qualquer um naquela divisão de peso. Ali ele poderia ter alçado ao título do CMB, cinta esta que sempre declarou desejar e nunca conquistou.

Mais tarde, em um retorno excelente, recuperou o cetro contra Zahir Raheem. E cometeu outro erro, em seguida: Cansado da rotina dos treinos, resolveu “se aposentar com o cinturão”, aos 31 anos, com muito ainda a entregar nos ringues. Pior do que isso, retornou exatamente um ano depois, sem sequer deixar o boldrié vago, para tentar unificá-lo com Juan Diaz, um jovem muito mais preparado, naquele momento.

O treinamento para aquela luta foi basicamente de perda de peso, o que ficou nítido sobre o tablado do Foxwoods (de novo). Sem nenhum ritmo, ou plano de ação, foi castigado até se retirar no intervalo do oitavo, para o nono round. Ficou eternamente manchado no maior mercado consumidor de boxe do planeta por ter abandonado, novamente, um confronto, ainda que Ulysses Pereira, seu treinador atual que encontrava-se no córner, tentasse desesperadamente mantê-lo na luta, enquanto Oscar Suarez, seu técnico à época, incentivava-o a parar.

Não tivesse “se aposentado”, mantendo-se ativo e em forma, Diaz não teria sido nenhum bicho de sete cabeças para o “Mão de Pedra”, como também era conhecido. Mais tarde Nate Campbell venceu o “Torito” nos pontos e Juan Manuel Marquez, mesmo sem tamanho poder de punch, conseguiu nocauteá-lo, prova de que era possível, se em alto nível, vencer Juan.

Nestas contas já seriam dois títulos a mais para Acelino. Mais importante do que isso, seria aonde estas vitórias o levariam. Vale lembrar que, nessas mesmas épocas, ascendiam ao estrelato no pugilismo Floyd Mayweather Jr e Manny Pacquiao, respectivamente, dois astros que Freitas declarou querer enfrentar anos mais tarde, sem a menor chance de que isso ocorresse. (É verdade que a luta contra Mayweather quase aconteceu após a vitória sobre Casamayor, em 2001, mas Floyd preferiu subir aos leves para encarar Castillo).

Em resumo, tivesse vencido Corrales ou Diaz, mantendo-se focado, Popó teria grandes desafios à sua frente dos quais, mesmo se saísse derrotado, seria engrandecido. Por isso poderia ter sido maior do que foi. Mas, não para por aí.

Quis o destino que, em 2012, um jovem em ascensão, bancado por seu pai, tirasse o ex-campeão de seu retiro. Todos sabem da surra que Michael Oliveira, então invicto, tomou ao enfrentar o baiano, no Uruguai. O então deputado federal ensaiou buscar novamente uma jornada mundialista, mas ficou nisso.

Em 2015, bradou que estava de volta, querendo ser pentacampeão. Após nocautear o argentino Mateo Verón, em Santos, disse que já estudava seus próximos oponentes. Nós mesmos fizemos uma lista deles, solenemente ignorada. A dura realidade econômica do Brasil naquele momento, afastou qualquer possibilidade de lucrar com eventos aqui. Ainda assim, mesmo com alguma resistência, se quisesse de verdade brigar pelo quinto cinturão, poderia começar aos poucos, nos Estados Unidos, ou na Europa. Talvez arriscar, usando seu nome, servir de escada para alguém, buscando, na realidade, surpreender. Por algum motivo, decidiu não fazê-lo. Parou de novo.

E agora, em 2017, retorna para o que, garante, ser sua exibição derradeira. Diante de um Gabriel “El Rey” Martinez (29-10-1, 16 ko's), atleta do México - que é uma mistura de incógnita, com uma vitória quase certa de Freitas - desfilará seu poder de nocaute pela última vez, na Arena “Guilherme Paraense”, em Belém, Pará.

É sempre arrepiante ver Popó no ringue. Achei que nunca veria isso pessoalmente. Mas vi. O vi jogar Mateo Verón na lona e, de quebra pude ir ao vestiário parabenizá-lo depois do feito. Lá pude dizer a ele que era um de meus ídolos. Ainda que tenha deixado para trás boas oportunidades, cometido erros no trajeto, Acelino serviu para inspirar uma geração inteira de novos lutadores e amantes do esporte de luvas. Isso ninguém, jamais, tirará dele.

Não dá pra culpá-lo por não querer mais o boxe em nenhum dos momentos em que não mais o quis. Hoje ele vive uma vida confortável, em um contraste muito positivo em relação ao passado de pobreza. Conseguiu isso por mérito próprio. Espero, portanto, que deixe o quadrilátero de cordas de forma digna, servindo de exemplo para quem quer alcançar o que alcançou com os próprios punhos.

“Popó Vs. Martinez” será levado ao ar pelo SporTV3, ao vivo, a partir da meia-noite deste sábado, 11 de Novembro, para Domingo. No Pará e na Bahia, a Rede Globo também transmitirá o confronto.

Ainda não temos informações precisas sobre quais preliminares, das 12 disputadas, serão exibidas. É mais provável que seja alguma, ou mais de uma, das três listadas abaixo:
- Vitor Freitas (14-1, 8 ko's) x Marcelo Costa (2-0, 0 ko's) – médios-ligeiros, em 6 rounds;

- Jackson Furtado (3-0, 2 ko's) x Paulo Galdino (3-1, 2 ko's) – título brasileiro dos super-leves (CNB), em 10 rounds;

- Jefferson da Silva (4-0, 3 ko's) x Gustavo Silveira (2-6, 1 ko's) – título brasileiro dos leves (CNB), em 10 rounds;

O evento será realizado em parceria com o Governo do Estado do Pará, Tek Bond, Boulevard Shopping e Gazin. A supervisão geral ficará a cargo do Conselho Nacional de Boxe. Os ingressos custam R$ 20,00 (arquibancada) e R$ 50,00 (cadeiras). A programação terá início ás 20 horas, horário local.

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