Pré-Luta

Publicado em 18 de Novembro de 2016 às 21h:29

A verdadeira “Luta do Século” acontece neste final de semana

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Autor Daniel Leal

Numa batalha de estilos, o russo Sergey Kovalev combate o americano Andre Ward em meio a ânimos acirrados entre seus dois países, três cinturões mundiais em jogo e uma invencibilidade somada de 61 lutas entre ambos. A contenda que decide o melhor meio-pesado do mundo, quiça o melhor lutador entre todos os pesos, tem todo o roteiro de um filme e uma importância gigantesca (mas a TV brasileira ignorará, solenemente, a mesma). (Imagem: boxingbets)

Guerra Fria. Esse é o contexto da somatória de meus sentimentos antes da disputa dos cinturões mundiais da FIB, AMB e OMB dos meio-pesados deste sábado, em Las Vegas. O campeão, Sergey Kovalev (30-0-1, 26 ko's), terá pela frente seu mais complicado oponente. Andre “S.O.G” Ward (30-0, 15 ko's), idem. Um americano e um russo terão que transpor seu mais ardil obstáculo dentro do ringue, enquanto, fora dele, um clima politicamente estranho e tenso ronda suas nações.

Para quem está meio por fora da situação, as tensões no Oriente Médio acirraram ânimos de Vladimir Putin e Barack Obama, recentemente, em um complexo emaranhado de sanções econômicas, diplomacia e dominância territorial. Tudo que não cabe em um texto sobre boxe e, portanto, será deixado para que os senhores deleitem-se no nosso Santo Graal, vulgo Google. Não pense, porém, que a promoção de “Kovalev vs. Ward” não ganhe uma aura ainda mais poderosa com isso.

Dentro do ringue o contraste de estilos imperará. Enquanto o atual detentor dos boldriés supracitados é muito agressivo e tem um poder de punch fora da curva, Ward, último medalhista de ouro dos EUA em Olimpíadas entre os homens, em Atenas-2004 (isso mesmo, perto do Brasil eles estão na fila – valeu Robson!), é talvez o lutador mais técnico em atividade atualmente – contando que Floyd Mayweather Jr., permaneça aposentado.

Fica nítido que as armas de cada um são amplamente diferentes: Apesar de ter ótimos fundamentos, é inegável que o russo se apoia em sua pegada como fator mais decisivo em suas apresentações. Já o estadunidense não se importa nem um pouco em ouvir o soar final do gongo no 12º round e levar nos pontos.

Na disputa de currículos, Ward vence, chorado, por um majestoso 5 à 4, se fosse no futebol. Sergey, campeão desde 2013, acumula oito defesas de seu cinto da Organização Mundial de Boxe. Sua contenda de maior importância, sem dúvidas, foi diante do veterano Bernad Hopkins, há exatos dois anos, quando unificou as cintas da Associação e da Federação, ao reinado que já possuía. O californiano, porém, tem trajetória mais robusta. Já havia vencido nomes como Edison “Pantera” Miranda e Rubin Williams antes mesmo de alçar a um cetro mundialista, o que ocorreu na primeira rodada do torneio “Super Six”, em 2009, quando transpassou o dinamarquês Mikkel Kessler, lhe roubando a monarquia chancelada pela AMB nos super-médios. Na sequência da competição, deixou para trás Allan Green, Sakio Bika e o “Rei” Arthur Abraham, chegando na final contra Carl Froch, vencendo o britânico, e adicionando o belt do CMB à sua coleção. Impôs um nocaute técnico a Chad Dawson logo depois, só para manter seu status de absoluto na categoria.

Mesmo com o sucesso, Andre passou por problemas contratuais que o deixaram para o lado de fora das cordas na maior parte do tempo entre o êxito sobre Dawson, no último trimestre de 2012, e o sobre Paul Smith, em Junho de 2015. No ínterim ainda tirou a invencibilidade de Edwin Rodrigues, mas foi só. Em 2016, no entanto, tem sido diferente. Contra o “Krusher” da Rússia somará três subidas ao quadrilátero somente neste ano.

Além do abordado, o vencedor pode se colocar, simplesmente, como o melhor lutador libra-por-libra na atualidade. Não é sem motivo que o evento tenha sido batizado como “Pound for pound”, exatamente em alusão a magnitude deste confronto não só para a divisão de peso em que será pelejado, como para o mundo do pugilismo num geral. O potencial do encontro entre estes dois atletas é maior em termos de vistosidade do que “Mayweather vs Pacquiao”, em Maio de 2015, que recebera a alcunha de “Luta do Século” muito mais por seu apelo promocional do que pela expectativa de emoção no quadrilátero.

Para completar a programação, como se ainda necessitasse de maior interesse, foram colocadas batalhas bastante atrativas. Isaac Chilemba (24-4-2, 10 ko's), último oponente de Kovalev, encara o invicto Oleksandr Gvozdy (11-0, 9 ko's), valendo o título americano NABF dos 79,8 kg. Nos super-leves Maurice Hooker (21-0-2, 16 ko's) divide o ringue com Darleys Perez (33-2-1, 21 ko's) pelo cinturão norte-americano versão OMB (NABO). Já o médio Curtis Stevens (28-5, 21 ko's), que vem de vitória sobre o brasileiro Patrick Teixeira terá pela frente James De la Rosa (23-4, 13 ko's) com o boldrié Continental das Americas da AMB em jogo.

A cereja do bolo é a estréia profissional de Claressa Shields, duas vezes ouro olímpico entre as mulheres. Shields, que tem apenas uma derrota no amadorismo, encara Franchon Crews (também estreante) e tem potencial para revolucionar a vertente feminina do esporte de luvas nos Estados Unidos, que desde a era Laila Ali carece de uma grande boxeadora para representá-la a altura junto ao grande publico.

O maior problema é que, no Brasil, as emissoras e imprensa num geral simplesmente ignorarão Kovalev vs. Ward. Lamentável, mas não inesperado.

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